Ao fazermos memória hoje, dos 51 Beatos Mártires Claretianos de Barbastro, somos convidados a olhar brevemente a história da Espanha durante o século XX, em especial a Guerra Civil Espanhola, motivo principal, de termos tantos mártires neste século.
A Guerra Civil Espanhola foi um conflito armado ocorrido na Espanha entre 1936 e 1939. Uma guerra travada entre os Republicanos (aliança de conveniência entre os Anarquistas e os Comunistas – leais à Segunda República Espanhola), e os Nacionalistas (aliança de Falangistas, Monarquistas, Carlistas e Católicos – liderada pelo General Francisco Franco). Devido ao clima político internacional na época, a guerra teve muitas facetas, e diferentes pontos de vista a viram como uma luta de classes, uma guerra religiosa, uma luta entre ditadura e democracia republicana, entre fascismo e comunismo. Os Nacionalistas venceram a guerra no início de 1939 e governaram a Espanha até à morte de Franco em Novembro de 1975.
Neste contexto social e político, a Igreja da Espanha passa a ser perseguida pelos republicanos, num desejo de eliminar do território espanhol a Igreja Católica. Motivados por este desejo de acabar com o catolicismo no país, começa a haver uma perseguição à Igreja e seus membros, o que irá consequentemente gerar o assassinato daquele que professavam e defendem esta fé (clero e leigos). Assim surgem os mártires, que são todas as pessoas que são assassinadas unicamente por professarem a fé católica.
São muitas as estatísticas à cerca desta perseguição à Igreja, e sempre com números assustadores. Dentre as estatísticas encontradas, ficaremos com uma que diz que entre 1936 e 1939 foram assassinados 6.832 sacerdotes e seminaristas, 2.365 religiosos e 283 religiosas, um incontável número de leigos martirizados, e milhares de igrejas incendiadas e destruídas. Dentre esse grande número de mártires, os missionários Claretianos contam com 271 membros mortos por professarem a fé Católica.
Dentre os 271 mártires Claretianos da guerra civil espanhola, 184 já foram beatificados pela Igreja. Dentre eles, os 51 de Barbastro, cuja festa celebramos 13 de agosto. Este foi o primeiro grupo de mártires Claretianos a serem proclamados Beatos, no dia 25 de outubro de 1992.
A cidade de Barbastro, localizada no estado de Huesca na Espanha, em 1936 contava com aproximadamente 8.000 habitantes. E nela estava a comunidade claretiana que também era um seminário, e por este motivo contava com um total de 60 membros, sendo: 9 sacerdotes, 12 irmãos e 39 seminaristas prestes a receberem a ordenação.
Em meio à guerra civil que se iniciava, e as incertezas que rondavam o futuro da Igreja, a congregação não teve tempo de tomar medidas protetivas aos seus membros, até que no dia 20 de julho de 1936 a comunidade claretiana de Barbastro foi invadida pelos milicianos, e teve como desfeche a detenção de todos. O Superior, Pe. Felipe de Jesus Munárriz, o Formador dos Estudantes, Pe. João Díaz e o Administrador, Pe. Leôncio Pérez, foram levados diretamente ao cárcere municipal. Os idosos e enfermos foram transladados ao Asilo ou ao Hospital da cidade; e os demais foram conduzidos a um colégio que era dos padres Escolápios, e ficaram detidos no salão de atos até o dia da execução.
No dia 02 de agosto, os três responsáveis pela comunidade claretiana, sem nenhuma classe de juízo, simplesmente por sua condição religiosa, foram fuzilados na entrada do cemitério.
Os que permaneceram encarcerados no salão dos Escolápios, desde o primeiro momento se prepararam para morrer. Durante os primeiros dias de cativeiro puderam receber a comunhão clandestinamente. A Eucaristia foi, naqueles trágicos momentos, o centro da sua vida e a origem da sua fortaleza. Com a oração, o ofício divino e o rosário foram preparando-se interiormente para a morte. Tiveram que suportar muitas incomodidades físicas e morais. Foram humilhados e atormentados com simulações de fuzilamento. Introduziram prostitutas no salão para provocá-los e tenta-los em seu voto de castidade.
Dentro da angustia e sofrimento, pouco a pouco toda a comunidade foi sendo fuzilada. No dia 11 de agosto 6 foram mortos à porta do cemitério. Em 13 de agosto, outros 20 fuzilados a poucos quilômetros da cidade, e no dia 15, outros 20 martirizados, e por fim, em 18 de agosto, os últimos 2 são fuzilados, estes estavam no hospital, e após se recuperarem, são conduzidos direto ao martírio.
Dentre os 60 membros da comunidade, alguns se salvaram, ou por já terem uma idade muito avançada, ou no caso de Parussini e Hall que eram argentinos e foram libertados e expulsos da Espanha, pois os anarquistas queriam evitar problemas diplomáticos.
Diante deste cenário de terror e sangue, o que chama a atenção é a fidelidade ao Evangelho. Com exceção dos padres, os estudantes possuíam entre 20 e 26 anos de idade, mas já traziam no coração a coragem e força de assumirem o chamado até as ultimas consequências. E mesmo diante de inúmeras propostas de se salvarem de forma individual, eles sempre optaram por seguirem fiéis à comunidade religiosa, e não abandonar os irmãos.
Uma grande graça é que, durante o tempo de cárcere, eles se utilizaram de todos os materiais que estavam ao seu alcance para deixarem sua mensagem. Infelizmente algumas cartas foram queimadas, ou as paredes pintadas pelos anarquistas, numa tentativa de apagar as suas memórias. Mas os muitos escritos que resistiram, nos conduzem à profundas reflexões espirituais. São mensagens de perdão aos assassinos, e de gratidão à Igreja e à congregação. Alguns deixaram escritos às famílias, pedindo que elas se alegrassem, pois o filho foi fiel a Jesus, e mereceu receber a coroa do martírio. Desta forma, apresentamos aqui, uma carta escrita pelos mártires à congregação :
Carta de despedida à Congregação
“Antes de ontem, dia 11, morreram, com a generosidade dos mártires, seis dos nossos irmãos; hoje, dia 13, alcançaram a palma da vitória vinte, e amanhã, dia 14, esperamos morrer os vinte e um restantes. Glória a Deus! Glória a Deus! E quão nobre e heroicamente se comportam os teus filhos, Congregação querida! Passamos o dia animando-nos para o martírio e rezando por nossos inimigos e pelo nosso querido instituto.
Quando chega o momento de designar as vítimas, existe em todos uma santa serenidade e o desejo de ouvirem o seu nome para colocarem-se na fila dos eleitos; esperamos o momento com generosa impaciência, e quando chega, vimos alguns beijarem as cordas que os atavam, e outros dirigirem palavras de perdão ao povo armado; quando vão no caminhão para o cemitério ouvimos os gritos: Viva Cristo Rei!, e as respostas do povo: Morram! Morram!, mas nada os intimida. São teus filhos, Congregação querida, estes que entre pistolas e fuzis se atrevem a gritar serenos quando vão para o cemitério: Viva Cristo Rei!
Amanhã iremos os restantes e já combinamos as palavras de aclamação, mesmo no meio dos disparos, ao Coração de nossa Mãe, a Cristo Rei, à Igreja Católica e a ti, mãe comum de todos nós. Os meus companheiros me disseram que eu devo começar os vivas e que eles responderão. Eu gritarei com toda a força de meus pulmões, e em nossos clamores entusiastas, adivinha, Congregação querida, quanto amor temos por ti, e te levamos em nossas recordações até estas regiões de dor e de morte.
Morremos todos contentes sem que ninguém sinta desmaios e nem pesares; morremos todos e pedimos a Deus que o sangue que cair de nossas feridas não seja sangue de vingança, mas sangue que entrando vermelho e vivo por tuas veias, estimule o teu desenvolvimento e expansão por todo o mundo. Adeus querida Congregação! Os teus filhos, mártires de Barbastro, te saúdam desde a prisão e oferecem por ti as suas dolorosas angústias em holocausto expiatório por nossas deficiências e em testemunho do nosso amor fiel, generoso e perpétuo. Os mártires de amanhã, dia 14, se recordam que morrem nas vésperas da Assunção, e que lembrança! Morremos por levar a batina, e morremos precisamente no dia em que a recebemos.
Os mártires de Barbastro e em nome de todos, o último e mais indigno:
Faustino Pérez, CMF.”
Que o exemplo de fidelidade destes mártires nos ajudem a vivermos nossa própria vocação, confiando plenamente na graça generosa de Deus. E que “o martírio aceito solidariamente pelos Claretianos de Barbastro em seu caminho ao sacerdócio, constitua uma fonte de renovação para as vocações e para os seminaristas de todas as nações. Que o Senhor conceda à Igreja pastores segundo o seu coração. Que o testemunho luminoso dos mártires, prepare todos a oferecer sua própria contribuição, no grande trabalho da formação sacerdotal.” (Papa João Paulo II)
Beatos Mártires Claretianos de Barbastro, roguem por nós!
Padre Luiz Francisco Márvulo Martins, CMF.